Bronquiolite viral aguda: o guia do MS de 2026 e o que não fazer

Bronquiolite viral aguda: o guia do MS de 2026 e o que não fazer
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A questão de bronquiolite na prova de residência é uma armadilha de conduta: o enunciado descreve um lactente sibilante e oferece salbutamol, corticoide, antibiótico e raio-X como alternativas atraentes. A resposta correta é suporte. Em 2026 o Ministério da Saúde publicou o primeiro Guia de Manejo Clínico da Bronquiolite Viral Aguda, que consolida isso em texto oficial, e a Conitec aprovou o protocolo do nirsevimabe. Este guia organiza os dois documentos pelo que cai.

Bronquiolite viral aguda: o guia do MS de 2026 e o que não fazer
Resumo visual do tema. Fonte: Guia de manejo clínico da bronquiolite, Ministério da Saúde, 2026.

Definição e etiologia

Dificuldade respiratória em menor de 2 anos por infecção viral aguda com inflamação das vias aéreas inferiores. VSR em até 80% dos casos, rinovírus em segundo; um terço dos internados tem dois ou mais vírus. Sazonalidade no Brasil: fevereiro a agosto. Formas graves ocorrem na primoinfecção.

Fatores de risco para gravidade

Prematuridade abaixo de 37 semanas, baixo peso, menos de 12 meses e sobretudo menos de 6, displasia broncopulmonar, imunodeficiência, malformação de via aérea, cardiopatia com repercussão, doença neuromuscular, trissomia do 21, fibrose cística; e, ambientais, tabagismo passivo, poluição e desmame precoce.

Diagnóstico clínico

Pródromo de via aérea superior, depois tosse, taquipneia, sibilos, crepitações e uso de musculatura acessória entre o 3º e o 5º dia, que é também o pico de gravidade. Tosse até 3 a 4 semanas.

ExamePosição do guia
Radiografia de tóraxNão é rotina; só em caso grave ou evolução desfavorável; não separa viral de bacteriano
TomografiaExcepcional
Hemograma e PCRCaso grave ou dúvida diagnóstica
RT-PCR viralHospitalizados com SRAG, para isolamento e para evitar antibiótico
GasometriaIndicação de ventilação

Classificação de gravidade

LeveModeradaGrave
ConsciênciaNormalNormal ou irritabilidade leveIrritabilidade ou letargia
RespiraçãoSem desconforto ou taquipneia leveTaquipneia e/ou esforço moderado, sem gemênciaRetrações, gemência, batimento de asas, balanço toracoabdominal
SpO2 ar ambiente> 92%90% a 92%< 90%
ApneiaNãoNãoPode ter
AlimentaçãoNormalNormal ou com dificuldadeRecusa

Taquipneia: > 60 irpm abaixo de 2 meses, > 50 de 2 meses a 1 ano, > 40 de 1 a 5 anos. Menor de 2 meses: considerar internação em qualquer gravidade.

Manejo por gravidade

GravidadeOndeO que fazer
LeveCasaHidratação, alimentação, higiene nasal com SF 0,9%, antitérmico, higiene das mãos, sem descongestionante ou xarope, retorno nos sinais de alerta
ModeradaObservaçãoSuporte; se não responde, internação
GraveInternação, UTI se críticoSuporte e monitorização rigorosa

Medidas de suporte no hospital:

  • Oxigênio umidificado por cateter 1 a 3 L/min ou máscara se SpO2 persistente ≤ 92% ou esforço persistente; esforço mantido com saturação boa indica escalonar para cânula de alto fluxo.
  • Nutrição: oral se o padrão respiratório permite, em ofertas pequenas e frequentes; sonda gástrica como primeira escolha quando a oral falha, antes da venosa, independentemente do suporte ventilatório; CNAF não contraindica dieta oral. Venosa só em desidratação ou intolerância à sonda; sem fluidos hipotônicos; atenção à hiponatremia por ADH.
  • Febre tratada.
  • Aspiração profunda não é rotina.
  • Monitorização intermitente de FC, FR e SpO2; contínua em alto fluxo, VNI, VM e risco de apneia (prematuros e < 2 meses).

Intervenções não recomendadas, pelo guia

IntervençãoMotivo
AntibióticoSó com evidência de infecção bacteriana
Broncodilatador, inclusive prova com salbutamolMecanismo é edema e secreção, não broncoespasmo; sem benefício
Corticoide sistêmico ou inaladoCochrane, 17 ensaios, sem benefício
AdrenalinaSem recomendação
Salina hipertônica nebulizadaEvidência inconsistente, eventos adversos
MontelucasteSem benefício
Fisioterapia respiratória de rotinaSó individualizada: doença neuromuscular ou VM
Descongestionantes e antitussígenosSem benefício, risco

Critérios de alta

Estável por pelo menos 12 horas; SpO2 > 92% em ar ambiente; melhora do padrão respiratório; ingestão oral suficiente; pais orientados sobre sinais de alerta.

Complicações

Desidratação, atelectasia, apneia (prematuros e < 2 meses; prediz ventilação mecânica), pneumotórax; sibilância recorrente e asma com risco relativo em torno de 2,4; bronquiolite obliterante, rara, ligada a adenovírus.

Prevenção no SUS: vacina materna e nirsevimabe

Vacina VSR para gestantes a partir de 28 semanas, incorporada em 2025. Nirsevimabe, dose única por temporada, protocolo de março de 2026:

GrupoPeríodo
Prematuros < 37 semanas, qualquer peso, com ou sem vacina maternaAno todo; na maternidade se estável
Até 24 meses com cardiopatia congênita com repercussão, DBP, imunocomprometimento grave, síndrome de Down, fibrose cística, doença neuromuscular, anomalia de via aéreaFevereiro a agosto

Segunda temporada só com comorbidade. Cardiopatia sem repercussão (CIA ostium secundum, CIV pequena, estenose pulmonar, PCA) ou corrigida sem medicação: sem indicação. Palivizumabe, 2012: ≤ 28 semanas, 5 doses mensais.

Os erros que mais reprovam

  1. Pedir raio-X “para confirmar”.
  2. Fazer prova terapêutica com salbutamol.
  3. Prescrever corticoide “para a inflamação”.
  4. Dar antibiótico por crepitações.
  5. Iniciar soro venoso em quem só precisa de sonda.
  6. Prescrever soro hipotônico de manutenção.
  7. Dar alta a menor de 2 meses sem considerar internação.
  8. Indicar nirsevimabe para CIA pequena, ou negar a prematuro de 35 semanas.

Questão no estilo das provas de residência

Recém-nascido de 35 semanas, 2.400 g, clinicamente estável, nasce em outubro em maternidade do SUS; a mãe recebeu a vacina contra o VSR na 30ª semana. Sobre a imunoprofilaxia contra o VSR, assinale a correta.

A) Não há indicação de nirsevimabe, porque a vacina materna já protege o bebê. B) Nirsevimabe está indicado na maternidade, em dose única, independentemente da vacinação materna, por ser prematuro com menos de 37 semanas. C) Nirsevimabe só está indicado se o nascimento ocorrer entre fevereiro e agosto. D) Palivizumabe mensal está indicado por 5 meses, por ser prematuro.

Resposta: B.

O protocolo de 2026 inclui todos os nascidos com menos de 37 semanas, com qualquer peso e independentemente da vacinação materna, porque a transferência transplacentária de anticorpos é reduzida no prematuro; a administração é na maternidade, desde que o recém-nascido esteja estável, e durante o ano todo para esse grupo. A janela de fevereiro a agosto vale para as crianças com comorbidades até 24 meses, não para prematuros, o que elimina C. O palivizumabe cobria apenas prematuros de 28 semanas ou menos e foi substituído na estratégia, o que elimina D.

Perguntas frequentes

Qual a principal causa de bronquiolite?

O vírus sincicial respiratório, em até 80% dos casos.

Bronquiolite precisa de radiografia?

Não, de rotina.

Broncodilatador é indicado?

Não, nem como prova terapêutica, segundo o guia do MS de 2026.

Quando internar?

Moderada sem resposta à observação, grave, e considerar em todo menor de 2 meses.

Quando usar oxigênio?

SpO2 persistente de 92% ou menos ou esforço persistente.

Qual a via de hidratação preferida se a oral falha?

Sonda gástrica, antes da venosa.

Quem recebe nirsevimabe no SUS?

Prematuros abaixo de 37 semanas o ano todo e crianças até 24 meses com comorbidades de risco entre fevereiro e agosto.

Qual a diferença para o palivizumabe?

Cobria só prematuros de 28 semanas ou menos e exigia 5 doses mensais; o nirsevimabe é dose única por temporada.

Confira sempre o guia vigente do Ministério da Saúde antes de decisões clínicas. Quer fixar a lista do que não fazer? Treine questões de pediatria no banco de questões.

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